Sexta-feira, Setembro 3

Tempo

O tempo é implacável. Preciso. Deparei-me com aquela foto 3x4 sua, e de queima roupa lembrei de um passado desbotado, mas feliz. Foto sua, esta, marcada com lágrimas ressecadas que um dia ousei derramar, de digitais minhas que um dia poderão me incriminar. Mas nada disso importa. Olhando essa foto, com suas devidas dobras e estrias, uma película invadiu detrás meus olhos, brotou lembranças e vestidos. Cabelos.
Recordo-me da época que fumávamos escondidos. Que você declamava seus poemas, sempre feliz. Que me pagava sorvete de limão. Ou quando pedia que controlasse meu cabelo. Do seu vestido vermelho com laço azul, que mais parecia roupa de dormir. Era melhor, pois tinha a breve sensação de filma-la na melhor parte do dia, vendo-te acordar. E sorrindo. Pessoas não são mal humoradas quando acordam?
De sua cara cítrica quando apontava seu cabelo preso. De seu orgulho em ter vinte gatos. De sua audácia em escrever. De como se entrega quando beija.
Tudo isso passou. E rápido. Mal consigo ver seu rosto agora. Mas às vezes passo no nosso cantinho, lá mesmo, e tudo está provocado. Parecendo uma cena que será filmada. A luz quase não ajuda, mas qual a necessidade, se a cena é de amor?